É um conselho que passa de geração em geração: “Leva os sapatos, que eles acabam por alargar.” Mas será mesmo assim? A resposta é: depende. Embora alguns materiais possam ceder ligeiramente com o uso, isso está longe de significar que um sapato demasiado apertado se torna confortável.
“Existe algum fundamento neste mito, mas apenas em determinadas circunstâncias. Alguns materiais, como o couro natural, podem ceder ligeiramente e adaptar-se ao formato do pé. No entanto, esse alargamento é geralmente reduzido e não corrige um sapato que seja claramente demasiado estreito ou pequeno”, explica o podologista Miguel Vila Pouca ao 24notícias.
A ideia de que basta insistir no uso de um sapato apertado pode, aliás, sair cara à saúde dos pés. “Não devemos esperar que o pé se adapte ao sapato, deve ser o sapato a adaptar-se ao pé”, sublinha. “Utilizar calçado apertado na expectativa de que ‘vai dar de si’ pode provocar dor, bolhas, calosidades, alterações das unhas e, a longo prazo, contribuir para deformidades como o hálux valgo, vulgarmente conhecido como joanete, ou os dedos em garra.”
Por isso, se um sapato causa desconforto significativo desde o primeiro uso, a solução dificilmente passa por esperar que o material ceda. “Na maioria dos casos, isso significa simplesmente que não é o modelo ou o tamanho adequado.”
Os pés são a base de suporte do corpo e desempenham um papel fundamental na marcha, no equilíbrio e na absorção das forças geradas durante a locomoção. A forma como o calçado distribui essas forças pode fazer a diferença entre caminhar confortavelmente ou desenvolver problemas ao longo do tempo.
“Um calçado adequado ajuda a proteger o pé, promove conforto, reduz pontos de pressão excessiva e permite um movimento mais natural durante a marcha”, explica o especialista. “Embora o calçado, por si só, não seja responsável por todas as alterações musculoesqueléticas, pode contribuir para o aparecimento ou agravamento de problemas quando não respeita as características do pé ou as exigências da atividade realizada.”
Em pessoas com doenças como diabetes, artrite ou deformidades dos pés, a escolha do calçado torna-se ainda mais importante.
“Nestas situações, um calçado adequado pode reduzir o risco de lesões e melhorar significativamente a qualidade de vida.”
Apesar da enorme oferta disponível no mercado, não existe um modelo universal. “Não existe um ‘sapato perfeito’ para todas as pessoas. O melhor calçado é aquele que responde às necessidades individuais, ao formato do pé e à atividade que vai ser realizada.”
O especialista recomenda optar por modelos que permitam aos dedos movimentarem-se livremente, respeitem o formato natural do antepé, ofereçam estabilidade ao calcanhar, tenham uma sola flexível na zona dos dedos, bom amortecimento quando necessário e um sistema de ajuste eficaz, como atacadores ou velcro. Entre os erros mais frequentes está a tendência para privilegiar a aparência em detrimento do conforto.
“As pessoas continuam a escolher o calçado apenas pela estética ou a comprar um número abaixo porque acreditam que o sapato vai alargar”, refere. “Também é comum utilizar modelos demasiado estreitos durante muitas horas, usar diariamente sapatos muito gastos ou não adaptar o calçado à atividade que se vai realizar.”
A escolha começa ainda na loja. “Aconselho sempre a experimentar o calçado ao final do dia, quando os pés apresentam um ligeiro aumento de volume. É uma forma mais realista de perceber se o sapato será confortável no dia a dia.”
Antes da compra, é importante confirmar que existe espaço suficiente para os dedos, que o calcanhar permanece estável e que não há qualquer ponto de pressão.
“Um sapato confortável na loja tem muito maior probabilidade de continuar confortável depois.” Outra recomendação passa por alternar diferentes pares ao longo da semana. “Esta simples estratégia permite variar os padrões de carga sobre os pés e aumenta também a durabilidade do próprio calçado.” Para quem pratica exercício físico, a regra é igualmente clara.
“Cada modalidade deve ser praticada com calçado específico, que deve ser substituído quando apresentar desgaste significativo.”
Apesar de muitas pessoas considerarem normal sentir dores nos pés com o passar dos anos, os especialistas deixam um alerta.
“A presença persistente de dor nos pés, tornozelos, joelhos ou ancas não deve ser encarada como uma consequência inevitável do envelhecimento.” Nesses casos, a recomendação é procurar uma avaliação especializada.
“Uma avaliação por um profissional de saúde com formação em biomecânica permite identificar a origem do problema e orientar o tratamento mais adequado. Em muitos casos, pequenas alterações no calçado, associadas a outras intervenções, podem fazer uma diferença significativa na função, no conforto e na prevenção de lesões.”





