
Já não é só coisa de atletas: está a aumentar a procura por palmilhas personalizadas

Os pés estão a ganhar um novo protagonismo. Perceber como caminhamos pode ser o primeiro passo para compreender dores e evitar novas maleitas. Nem sempre o corpo consegue corrigir as suas falhas. Quem procura palmilhas no mercado, por exemplo em lojas de desporto, arrisca-se até a agravar o problema. É também por isto que o mundo das palmilhas personalizadas está a crescer. Em Portugal, já são feitas com recurso a impressoras 3D
“O pé é a base de sustentação do nosso corpo”. Mas será que lhe estamos a prestar a devida atenção? Há um movimento de consciência nesse sentido, à boleia da prática desportiva, sobretudo depois da pandemia. E, com ele, o negócio das palmilhas personalizadas tem vindo a registar uma procura crescente – por atletas e não só.
“Sim, há cada vez mais pessoas a procurar este tipo de solução que não têm qualquer problema associado [ou seja, sem queixas específicas]. Na parte desportiva, principalmente depois da pandemia, quando muita gente começou a procurar melhorar o seu estilo de vida e a praticar exercício físico”, descreve Miguel Vila Pouca, podologista do Centro Clínico Andar em Lisboa.
Miguel Vila Pouca vê, em média, 400 a 500 doentes por mês nas várias unidades em que trabalha. É a partir dessa experiência clínica que critica algumas das soluções de palmilhas disponíveis no mercado, que, diz, muitas vezes não dão resposta ao problema de origem – “mesmo quando são prescritas por ortopedistas”.
“Há também quem vá comprar palmilhas a lojas de desporto a achar que a coisa se vai resolver, muitas vezes estão a descompensar ainda mais”, lamenta.
Quem o procura vem em busca do nível seguinte: as palmilhas personalizadas, impressas em 3D.
Tratamento e prevenção
“A podologia não é só tratamento. É, acima de tudo, prevenção. Por exemplo, trabalho com atletas de alta competição, no sentido de evitar lesões e melhorar o seu desempenho”, argumenta Miguel Vila Pouca. As palmilhas podem ajudar a reduzir sobrecargas, a corrigir padrões de apoio ou na gestão de determinadas queixas.
Ainda assim, como vimos, não precisa de ser atleta para usar uma palmilha personalizada. Mesmo com a evolução no calçado, ele continua longe de ser ideal, de se encaixar perfeitamente no nosso pé. “Não é fácil encontrar o calçado correto”, reitera o podologista.
“Alguns problemas nos pés, na anca, nos joelhos e na coluna podem estar associados ao tipo de pé que temos e à nossa forma de andar ao longo da vida. O nosso organismo, a nível fisiológico, faz uma tentativa de compensação, mas não quer dizer que o faça da forma correta”, aponta.
Um investimento em saúde?
Um par de palmilhas personalizadas, feitas numa impressora 3D, não é para todos os bolsos. Se as ditas normais custam 130 euros, as versões para desportistas chegam aos 200 euros. A decisão sobre qual aplicar a cada doente cabe ao podologista. Os contornos de cada caso também ditam o tipo de material e revestimento a utilizar.
“O esqueleto da palmilha é desenhado e desenvolvido com detalhe, olhando para os focos específicos de cada pessoa. O modelo certinho é o modelo de cada doente. Os pés não são iguais”, insiste Miguel Vila Pouca.
E, mesmo depois do resultado final, é necessário “dar feedback” ao fim de uma semana para perceber se o encaixe está bom, se o material se adaptou totalmente aos contornos do pé.
Importância da biomecânica
Para chegar à palmilha final, no Centro Clínico Andar exige-se um exame biomecânico da marcha. “Fazer palmilhas personalizadas sem este exame é fazer palmilhas sem critério. A biomecânica é uma das principais peças para compreender a origem de algumas patologias. Uma coisa é um traumatismo, outra é uma lesão provocada por um movimento que está a ser feito de uma forma incorreta”, acredita o podologista. Basta perceber que o tipo de movimentos é diferente na corrida, no futebol ou no padel.
Neste exame, o doente caminha numa passadeira equipada com sensores, que permite perceber como o pé se apoia no solo, de que lado o corpo faz maior carga e se há sinais que possam sugerir uma dismetria – ou seja, se há uma perna mais curta do que outra. Verdade seja dita, muitos de nós temos pequenas diferenças deste tipo. Contudo, há situações em que o desnível obriga o corpo a tentar uma compensação que acaba por ter consequências negativas.
“A tecnologia entra para confirmar o que o nosso olho treinado vê”, confirma Miguel Vila Pouca. E há muitas maneiras de fazer um retrato tecnológico aos nossos pés. Uma delas é recorrendo a um podoscópio, que faz uma espécie de retrato do nosso pé, indicando, entre outros, o tipo de arco plantar – por exemplo, se um pé é cavo. Contudo, “é uma coisa estática” e nós raramente estamos parados de pé nas nossas vidas.
Trabalho conjunto
Apesar de não ser uma especialidade médica, a podologia – que é uma profissão da área da saúde com regime próprio de acesso e exercício – tem vindo “a acrescentar muito à área da saúde nos últimos 15 anos”, através de um trabalho estreito com a ortopedia ou a fisiatria, acredita Miguel Vila Pouca. E acrescenta: “a podologia tem de estar inserida numa equipa multidisciplinar”.
Antes de terminarmos este artigo, convém referir as duas situações mais frequentes no pé: a fascite plantar e o joanete. No último caso, Miguel Vila Pouca argumenta que uma avaliação biomecânica da marcha pode ajudar no que respeita à progressão ou à recidiva, “corrigindo e minimizando o impacto através de palmilhas personalizadas”.




